No dia 1º de Abril de 1964 o Brasil mergulha em uma nova fase da sua história. Durante 21 anos o país viveu um regime de governo militar, que marcou a nação, seu povo e suas instituições. Foram duas décadas de confronto entre forças políticas e sociais. Neste conflito ambos os lados, governo e oposição, utilizaram todos os seus recursos: censura, terrorismo, tortura e guerrilha.
O assunto ditadura militar voltou a cena com grande peso, desde o anúncio da candidatura de Dilma Roussef . Ela foi uma das militantes políticas desta época e sua entrada para a política teve início justamente em 1964 quando prestou concurso e entrou para o Colégio Estadual Central (atual Escola Estadual Governador Milton Campos), ingressando na primeira série do ensino médio. Nesta escola pública o movimento estudantil estava em polvorosa graças ao recente golpe militar. Em palavras da própria Dilma foi nesta escola que fiquei "bem subversiva" e que percebi que o mundo não era para "debutante".
O primeiro movimento do qual Dilma fez parte foi o Polop, fundado em 1961, que tinha suas raízes fincadas no Partido Socialista Brasileiro e era contrária à linha do Partido Comunista Brasileiro e que deu origem a várias outras organizações.
Ainda em 1964, depois do golpe que depôs João Goulart, a Polop tentou armar uma guerrilha para derrubar o regime militar no Vale do Rio Doce, mas o projeto foi descoberto ainda em fase de planejamento. A partir deste projeto de guerrilha no Vale do Rio Doce, em 1967, tem início à chamada Guerrilha do Caparaó, liderada por militantes do Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR)
Os militantes da Polop começaram a discordar quanto ao método usado para a implantação do socialismo: de um lado defendiam a convocação de uma assembleia constituinte, por outro lado optavam pela luta armada. Dilma decidiu-se pela segunda opção. Esta fragmentação em 1967 levaria aos que escolheram a luta armada a fundar o Comando de Libertação Nacional (Colina), em Minas Gerais, enquanto, em São Paulo, uma "ala esquerda" da organização uniu-se a militantes remanescentes do MNR para constituir a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). De acordo com Apolo Heringer, que foi um dos diretores do Colina, Dilma assim como tantos outros se decidiu pela armada após ler Revolução na Revolução, de Régis Debray.
É neste período que Dilma conheceu Cláudio Galeno de Magalhães Linhares, ingressado na Polop desde 1962 e defensor da luta armada. Este viria a ser seu marido após um ano de namoro.
Sentando em um dos muitos “cafés” do Edifício Maleta no centro de Belo Horizonte, Conrado Silva*, tem hoje 86 anos e participou do Colina. Ele afirma que em 1969 não havia muitos militantes em Belo Horizonte. “Não tínhamos dinheiro, nem pousada fixa, pois o medo da repressão nos fazia mudar constantemente”. Neste período um assalto a banco causou uma grande confusão; a casa onde estavam foi invadida ao que a militância respondeu com uma metralhadora, matando dois policiais e ferindo um.
A partir daí Dilma e Galeno passaram a dormir cada noite em um local diferente. A casa dos pais já não era segura, então após alguns meses em Belo Horizonte o casal se transfere para o Rio de Janeiro. Lá eles encontraram o também mineiro Fernando Pimentel.
No Rio, Dilma tinha 21 anos e era tida como uma das líderes. Ela não podia ir a combate, sua prisão tornaria as coisas muito difíceis para a organização, lembra Conrado Silva*.
A mudança para Porto Alegre viria através da transferência de seu marido pela organização para a cidade. Dilma conheceu o advogado gaúcho Carlos Franklin Paixão de Araújo por quem se apaixonou durante as reuniões e com quem viveria 30 anos, a separação em palavras do próprio Galeno foi pacífica, "naquela situação difícil, nós não tínhamos nenhuma perspectiva de formar um casal normal”.
A VAR-PALMARES se definia como "uma organização político-militar de caráter partidário, marxista-leninista, que se propõe a cumprir todas as tarefas da guerra revolucionária e da construção do Partido da Classe Operária, com o objetivo de tomar o poder e construir o socialismo”. Surgiu da fusão de outros movimentos inclusive o Colina e Carlos Araújo foi escolhido para ser um dos líderes.
Ainda em 1969, de acordo com a Revista Veja, Dilma foi uma das mentoras de um grande assalto a banco, aliás considerado o maior da história terrorista, foram levados 2,5 milhões de dólares.
Em 16 de Janeiro de 1970, Dilma passaria talvez pela maior provação da sua militância política, em uma cilada armada para um outro colega ela aparece e é presa. "Ela foi muito mulher, suportou de tudo, a gente sabia o que ia acontecer, mas ela não abriu a boca, foram mais de 20 dias de tortura e nada", relata Conrado*. Carlos Araújo é preso em 12 de agosto do mesmo ano.
Dilma foi libertada em 1972. Muda-se para Porto Alegre, onde Carlos Araújo terminava de cumprir pena. Ele foi solto em 1974.
Depois que ela saiu da prisão nunca mais a vi pessoalmente, fiquei preso 3 anos e quando sai, parecia que eu estava em mundo completamente diferente, acho que até hoje não me recuperei. Depois voltei para Minas e para minha cidade natal, estava cansando, só apareci novamente para a campanha das Diretas Já, completa Silva.
O AI-5 previa que Dilma não poderia continuar o curso iniciado na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Deste modo presta vestibular para economia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul em 1973 e forma-se em 1977. Após a prisão, Dilma não conseguiu se manter distante da militância política e ingressa Instituto de Estudos Políticos e Sociais (IEPES), ligado ao então único partido legalizado de oposição, o Movimento Democrático Brasileiro (MDB).
De acordo com relatos da época em 1977, o nome de Dilma foi divulgado no jornal O Estado de São Paulo como sendo um dos 97 subversivos introduzidos na máquina pública. Dilma, qualificada como militante da VAR-Palmares e do COLINA e "amasiada com o subversivo" Carlos Araújo, foi, em consequência, exonerada da FEE, sendo, contudo, anistiada mais tarde.
Em 1978 ela ingressa na Universidade Estadual de Campinas, com o intuito de fazer mestrado. Este fato ainda gera polémica. Dilma declarou que "Fiz o curso de mestrado, mas não o concluí e não fiz dissertação. Foi por isso que voltei à universidade para fazer o doutorado. E aí eu virei ministra e não concluí o doutorado." A universidade informa que ela nunca se matriculou oficialmente no mestrado.
* O entrevistado não revelou seu verdadeiro nome por medo. Leia mais:
Dilma e suas companheiras
Caminho, armas em punho
Dilma Roussef e sua família
Estilo e simplicidade sem descer do salto
Nenhum comentário:
Postar um comentário